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Pagamentos internacionais: Trepzy chega ao Brasil com proposta ousada de conta global

Fintech nascida dentro da B2G Capital reúne contas multimoedas, envios para mais de 90 países e Pix conectado a saldos em dólar

A fatura do software de gestão chega em dólar. A campanha de mídia em outro país é cobrada em euro, e o cliente do Chile paga em pesos, num prazo que nem sempre coincide com o vencimento dos fornecedores. Para quem administra uma empresa com receitas ou despesas fora do Brasil, cada uma dessas operações carrega uma despesa que raramente aparece inteira no momento do pagamento.

Parte dela é conhecida. Pela regra geral em vigor, o IOF (Imposto sobre Operações Financeiras) incide com alíquota de 3,5% nas remessas ao exterior e de 0,38% no ingresso de recursos, com hipóteses de alíquota zero e isenção conforme a natureza da operação. Outra parte fica menos visível. Segundo a Trepzy, os meios tradicionais chegam a embutir até 6,5% de spread na conversão cambial, além de tarifas fixas elevadas por transação. A referência internacional aponta na mesma direção: o Banco Mundial calcula que enviar remessas de pequeno valor custa, em média, 6,36% do montante, somadas tarifas e margem de câmbio, de acordo com o relatório mais recente do Remittance Prices Worldwide, referente ao terceiro trimestre de 2025.

Há ainda o tempo gasto. Quando recebimentos e pagamentos passam por bancos, corretoras e plataformas diferentes, o fechamento do mês exige reunir extratos, conferir comprovantes e descobrir a qual fornecedor, produto ou área pertence cada saída. Enquanto essa conciliação não termina, o gestor decide quanto converter e em que moeda manter o caixa olhando para uma fotografia atrasada da empresa.

As pequenas e médias empresas, público prioritário da Trepzy, sentem esse peso de forma mais direta, porque costumam operar com equipes financeiras enxutas e menor poder de negociação. Os encargos, porém, valem para qualquer porte, e o fluxo é crescente. Em agosto de 2026, o déficit da conta de serviços chegou a US$ 5,3 bilhões, alta de 28,2% sobre o mesmo mês de 2025, segundo o Banco Central. As despesas líquidas com telecomunicações, computação e informações, rubrica que reúne gastos com software e nuvem, somaram US$ 1,3 bilhão, avanço de 128,2%. No ano passado, segundo painel da Secex/MDIC (Secretaria de Comércio Exterior do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços), o país exportou US$ 51,83 bilhões e importou US$ 104,77 bilhões em serviços.

A procura por caminhos mais rápidos também aparece nas estatísticas oficiais. No primeiro semestre de 2026, residentes no Brasil compraram US$ 14,68 bilhões em criptoativos no exterior, alta de 135% sobre igual período de 2025. O chefe do Departamento de Estatísticas do BC, Fernando Rocha, estimou que as stablecoins, moedas digitais atreladas a divisas como o dólar, respondem por 90% a 95% dessa demanda. Desde fevereiro, normas da autoridade monetária tratam a conversão entre reais e esses ativos como operação de câmbio, o que traz os novos trilhos para dentro do perímetro regulado.

Fernando Balbuena conhece esse cenário por experiência própria. Ele é fundador da B2G Capital, empresa de software por assinatura que opera há três anos em mais de 60 países e cinco idiomas. Nesse período, a B2G destinou mais de US$ 2,5 milhões a investimento em mídia global e despesas gerais de seus produtos, o que exigia receber de clientes em várias moedas, pagar plataformas de anúncios e fornecedores espalhados pelo mundo e manter tudo conciliado. Para sustentar essa rotina, a companhia desenvolveu uma infraestrutura financeira própria. Dela nasceu a Trepzy, empresa incorporada em Delaware, nos Estados Unidos, que agora chega ao mercado com Balbuena como CEO.

“Entendemos os problemas de uma gestão de recursos globais, porque não apenas viemos de um lugar onde enfrentávamos essas dificuldades, como ainda estamos lá, todos os dias”, afirma Balbuena.

A proposta da Trepzy vai além de facilitar transações entre países. A empresa quer ser uma conta global completa para a gestão financeira: reduzir o custo das operações, simplificar a conciliação e oferecer uma visão geral do negócio apoiada no uso intensivo de inteligência artificial para análise de dados. O foco inicial está no Brasil e na América Latina, com alcance internacional.

No lançamento, a plataforma oferece contas multimoedas e envios para mais de 90 países. O dólar tem papel central, mas não é a única moeda. É possível fazer um Pix a partir de saldo em dólar e, no sentido inverso, financiar via Pix transferências em dólar, euro, pesos e outras moedas, conforme a rota e a modalidade habilitada. O cliente também pode abrir várias contas para separar recursos por compromisso, projeto ou área.

Uma empresa brasileira que vende um aplicativo no exterior e recebe em dólar, por exemplo, pode reservar parte desse saldo para pagar fornecedores de tecnologia lá fora e direcionar outra parcela a despesas locais por Pix. Se o dinheiro estiver em reais e o fornecedor cobrar em moeda estrangeira, o próprio Pix financia a transferência.

Até o início de 2027, a Trepzy prevê ampliar a oferta com aceitação de cartões em checkout transparente e meios de pagamento locais por país, nesses mais de 90 mercados, além de cartões em dólar e em real para gestão de despesas, categorização de transações e orçamentos por departamento. A meta pública da empresa é alcançar US$ 150 milhões em pagamentos acumulados até o fim de 2027.

Negócios e Networking

Autor do Correio Vale do Café.

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