Agente conversa em linguagem natural, consulta a agenda em tempo real e repassa à equipe os pedidos que exigem atendimento humano
A Belasis, empresa brasileira de tecnologia de gestão para salões de beleza, barbearias, clínicas de estética, estúdios de manicure e spas, lançou uma IA (inteligência artificial) que conversa com clientes pelo WhatsApp e marca horários sem intervenção da equipe, inclusive à noite, nos fins de semana e nos feriados. O recurso roda sobre a API Oficial da Meta, a WhatsApp Cloud API, já integrada à plataforma, e chega na sequência do CRM (Gestão de Relacionamento com o Cliente) que a empresa lançou em setembro. A proposta é cobrir justamente o período em que o estabelecimento está fechado e as mensagens ficam paradas até a manhã seguinte.
O aplicativo virou o balcão desse tipo de negócio. Pesquisa do Opinion Box com 1.000 usuários, realizada em julho e divulgada neste mês, mostra que 77% deles já se comunicam com marcas pelo WhatsApp e 75% já contrataram algum serviço por ali. Entre os entrevistados que mantêm conta comercial no app, 47% o utilizam para agendar compromissos ou consultas. O mesmo levantamento aponta que 37% deixam o WhatsApp aberto o dia inteiro, hábito que faz o pedido de horário chegar a qualquer momento, inclusive quando não há ninguém na recepção.
A aposta da Belasis está na distância entre a nova ferramenta e os robôs de menu numerado, em que o cliente precisa digitar 1 para agendar ou 2 para consultar preços. O consumidor conhece bem esse formato e ainda o avalia com reserva. Segundo o Super Panorama Mobile Time/Opinion Box, divulgado em junho, 79,4% dos brasileiros com smartphone foram atendidos por chatbots nos últimos 12 meses, e a nota média dada à experiência ficou em 5,6, numa escala de 0 a 10. Entre as pessoas com 50 anos ou mais, cai para 5. A conversa com inteligência artificial generativa, por outro lado, já faz parte da rotina: segundo o Opinion Box, 49% dos usuários do WhatsApp testaram a Meta IA no próprio aplicativo, e 72% deles aprovaram as respostas.
“A diferença está em entender o que a pessoa escreve. A cliente manda ‘tem horário pra escova amanhã depois das seis?’, e a IA lê a agenda, oferece os horários livres e confirma, sem obrigar ninguém a navegar por um menu. Estamos falando de inteligência artificial de verdade, e não de um chatbot. Como ela funciona dentro da Belasis, trabalha com a mesma grade de horários que a recepção usa no balcão”, afirma Adriel Schmitz, CTO da Belasis.
No dia a dia, a ferramenta consulta a disponibilidade em tempo real, registra novos agendamentos, faz remarcações e processa cancelamentos. Também informa o que o salão oferece, os valores, a duração de cada procedimento e as regras do estabelecimento. Pode, ainda, sugerir serviços complementares, como uma hidratação para quem marcou um corte, conforme as preferências do cliente e os critérios definidos pelo salão, recurso com o qual a empresa pretende contribuir para elevar o ticket médio. Se o pedido for complexo ou o cliente quiser falar com uma pessoa, a conversa segue para a caixa de entrada do sistema, onde a equipe assume.
A integração pelo canal oficial pesa na operação. Conexões não oficiais, feitas por QR Code ou por versões alternativas do WhatsApp Web, deixam o número exposto a bloqueios e quedas, risco que a API da Meta reduz de forma expressiva, segundo a Belasis. Para quem concentra toda a marcação de horários em um único número, uma queda significa ficar sem canal de venda. O mesmo canal permite que vários atendentes trabalhem no mesmo número, com o histórico das conversas centralizado, e que o salão envie confirmações, lembretes automáticos e campanhas de reativação dentro das diretrizes da Meta.
O gestor decide até onde a IA vai. Ele escolhe se ela apenas tira dúvidas, se sugere horários ou se conclui o agendamento sozinha. Também pode ensinar o tom de voz da casa e as regras específicas do negócio, além de definir em que momentos a ferramenta entra em ação e quais clientes ela atende. A cobrança funciona por recarga de créditos de uso, modelo que, de acordo com a empresa, dá previsibilidade aos custos.
A chegada de agentes desse tipo aos pequenos negócios acompanha um movimento registrado pela pesquisa TIC Empresas 2025, do Cetic.br (Centro Regional de Estudos para o Desenvolvimento da Sociedade da Informação), divulgada em junho. O uso de IA entre empresas brasileiras com dez ou mais pessoas ocupadas passou de 13% em 2024 para 17% em 2025. Nas pequenas, foi de 10% para 15%. Entre as companhias que já adotam a tecnologia, o uso de geração de linguagem natural, que permite a um sistema redigir respostas em texto ou voz, subiu de 20% para 30%, e 80% optaram por soluções prontas, sem desenvolver sistemas próprios.
Com a IA de atendimento, a Belasis reúne na mesma plataforma a agenda, o relacionamento com clientes e a conversa no WhatsApp. Para o dono do salão, o ganho é de processo: o pedido que chega no domingo à noite pode virar horário confirmado antes de a porta abrir na segunda-feira.









