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Mulheres brasileiras estão construindo negócios no mercado de luxo americano

De projetos de interiores a paisagismo e imóveis de oito dígitos, empreendedoras brasileiras vêm ocupando um espaço que até pouco tempo não tinha sotaque: o alto padrão dos Estados Unidos. As trajetórias se concentram num mesmo corredor da Flórida e repetem um roteiro parecido, feito de nicho estreito, repertório próprio e tempo de permanência

Quando a arquiteta e designer de interiores Andria Tagliari chegou à Flórida, precisou traduzir mais de duas décadas de experiência no Brasil para os códigos de um novo mercado. Hoje, assina projetos residenciais e comerciais de alto padrão na região de Orlando e representa uma geração de brasileiras que transformou repertório, método e identidade em negócios nos Estados Unidos. E não está sozinha: uma paisagista premiada e uma corretora de imóveis de alto luxo compõem, no mesmo pedaço da Flórida Central, um retrato do que virou o movimento mais silencioso do empreendedorismo feminino brasileiro. Mulheres que deixaram de exportar trabalho e passaram a exportar marca.

1. Um recorde no Brasil, uma fronteira fora dele

O empreendedorismo feminino brasileiro vive seu melhor momento estatístico. Segundo o Sebrae, mulheres abriram mais de 2 milhões de pequenos negócios em 2025, cerca de 42% de tudo o que foi criado no país no período, um recorde da série histórica. Só entre os microempreendedores individuais, foram 1,6 milhão de novos CNPJs femininos. A fronteira seguinte é geográfica: transformar essa energia empreendedora em negócios que competem fora do Brasil, e não apenas nos segmentos óbvios.

2. O que o mercado de luxo americano cobra

O alto padrão americano não premia quem imita o repertório local. Premia quem chega com identidade própria e execução impecável. Foi a tese que Paulo Bacchi, da Artefacto, defendeu na estreia da coluna Tagliari Select: o design brasileiro deixou de ser exótico quando assumiu a própria identidade. Para a empreendedora que chega, isso se traduz em uma equação exigente: dominar os códigos do mercado local sem diluir o que a diferencia.

3. Da experiência brasileira à construção de negócios de alto padrão

A trajetória de Andria Tagliari reúne mais de duas décadas de experiência em arquitetura e interiores de alto padrão. Radicada nos Estados Unidos, ela transformou esse repertório em uma operação que integra arquitetura de interiores, especificação, mobiliário e execução. À frente da Tagliari Design, atualmente mantém mais de 80 mil square feet sob gestão em projetos residenciais e comerciais na Flórida, incluindo a transformação da antiga residência de Shaquille O’Neal, em Isleworth, com mais de 30 mil square feet. Sua atuação também se estende ao campo editorial por meio da coluna Tagliari Select, na qual entrevista nomes relevantes da arquitetura, do design e do mercado imobiliário.

“Não cheguei aos Estados Unidos apenas para vender projetos. Construí uma operação capaz de integrar arquitetura, interiores e execução. Foi assim que o repertório brasileiro deixou de ser apenas uma referência estética e se tornou um diferencial de negócio”, afirma Andria.

Cibele Pastori Conte se formou em paisagismo no Brasil em 2002 e mudou para os Estados Unidos em 2017, quando precisou construir uma reputação do zero num mercado que não conhecia sua assinatura. Cofundadora da Greenview Outdoor Living, hoje projeta e executa espaços externos de alto padrão na Flórida, no Brasil e em Dubai, tratando paisagismo, piscina, área gourmet e arquitetura como um projeto único em vez de etapas separadas. Neste ano, um dos projetos da empresa foi premiado no Florida Swimming Pool Association Design Awards, na categoria piscina.

“O verdadeiro luxo não está em usar material sofisticado ou fazer projeto grandioso. Luxo, para mim, é personalização, é atenção ao detalhe, é transformar um espaço em algo que represente quem vive ali”, diz Cibele.

Dianna Desboyaux atua há quinze anos no mercado imobiliário de Windermere, na região de Orlando, ao lado da mãe e da irmã, num arranjo familiar que soma mais de quarenta anos de mercado. O marco da carreira dela tem número e método: a venda de uma propriedade por US$ 15,3 milhões, à vista, operação em que representou comprador e vendedor ao mesmo tempo. A casa não estava anunciada. Segundo ela, foi a maior venda residencial registrada em Windermere e na região de Orlando até aquele momento.

“O alto luxo não está apenas no valor da propriedade. Está no acesso, no relacionamento e na capacidade de resolver. A casa não estava no mercado, mas eu conhecia o proprietário e conhecia o comprador certo”, afirma Dianna.

Em torno da operação imobiliária, ela e as sócias montaram um ecossistema próprio de serviços, de presentes personalizados a catering, eventos e design floral. É a mesma lógica que aparece nas outras trajetórias: no alto luxo, o produto vendido raramente termina na entrega contratada.

4. Um endereço em comum

As três atuam num raio curto da Flórida Central, entre Orlando e Windermere, em negócios que se tocam sem competir: interiores, espaço externo e a transação do imóvel. Não é coincidência de portfólio, é como o alto padrão funciona. O mercado é pequeno, opera por indicação e recompensa quem é lembrado pelo nome, não pela categoria. Para quem chega de fora, isso significa que a entrada custa mais tempo do que capital, e que a rede construída no caminho vale tanto quanto a obra entregue.

5. A lição que fica

O roteiro que emerge dessas trajetórias tem três constantes. Primeiro, nicho: o luxo é um mercado de confiança, e confiança se constrói mais rápido em territórios estreitos e profundos. Segundo, repertório próprio: a identidade brasileira, tratada com rigor técnico, virou ativo comercial em vez de barreira. Terceiro, consistência: presença, relacionamento e entrega no mesmo padrão, ano após ano. Nenhuma das três chegou com o mercado aberto. Para quem empreende do Brasil olhando para fora, a mensagem é menos sobre coragem e mais sobre método.

Negócios e Networking

Autor do Correio Vale do Café.

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