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“Deficiências invisíveis” afetam aprendizagem: 1 em cada 10 alunos pode ter problema de visão ou audição não diagnosticado

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Nem sempre uma criança que não acompanha a aula, se distrai com facilidade ou apresenta queda no rendimento escolar está lidando com um problema de comportamento ou aprendizagem. Em muitos casos, a dificuldade começa antes mesmo disso: na forma como ela enxerga e escuta.

Uma pesquisa conduzida por pesquisadores da Universidade de Stanford aponta que 1 em cada 10 alunos brasileiros apresenta as chamadas “deficiências invisíveis”, como baixa visão e perdas auditivas leves que não são diagnosticadas no ambiente escolar. O impacto é direto, essas crianças passam a aprender com lacunas, sem acesso completo às informações dentro da sala de aula.

O dado chama atenção para um problema pouco discutido, mas frequente. Diferente de outras condições mais evidentes, essas alterações não costumam ser percebidas facilmente por professores ou familiares. E, justamente por isso, acabam sendo interpretadas como desatenção, desinteresse ou dificuldade cognitiva.

Para o oftalmologista Dr. Hallim Féres Neto, membro do Conselho Brasileiro de Oftalmologia e diretor da Prisma Visão, a baixa visão na infância ainda é subdiagnosticada e, muitas vezes, silenciosa. “Muitas crianças não conseguem expressar que estão com dificuldade. Elas compensam, se aproximam dos objetos, memorizam conteúdos. Sem triagem visual sistemática nas escolas, esses casos passam despercebidos”, explica. 

Na rotina, alguns sinais podem indicar que algo não vai bem: aproximar o rosto de livros e telas, apertar os olhos, reclamar de dor de cabeça ou apresentar dificuldade para copiar da lousa. O problema é que, quando não identificado, o impacto vai além da visão. “Prejudica leitura, escrita e atenção sustentada. Muitas vezes, essas crianças acabam sendo encaminhadas com suspeita de déficit de atenção ou dificuldade cognitiva, quando o problema é visual”, afirma. 

O tempo de diagnóstico também pesa. Segundo o especialista, há momentos-chave para avaliação, como o primeiro ano de vida, a fase pré-escolar e antes da alfabetização. Em casos como a ambliopia, a chamada “visão preguiçosa”, a janela de tratamento é limitada. “Se não identificada precocemente, a recuperação da visão pode ser comprometida após os oito anos”, alerta.

A audição segue a mesma lógica silenciosa. A Dra. Roberta Pilla Otorrinolaringologista membro da Associação Brasileira de Otorrinolaringologia e Cirurgia Cérvico-Facial (ABORL-CCF) explica que perdas auditivas leves ou moderadas costumam passar despercebidas porque a criança ainda responde a estímulos sonoros no dia a dia.

“O problema aparece principalmente em ambientes com ruído, como a sala de aula. A criança ouve, mas não compreende completamente. Ela perde partes da fala, e isso compromete o entendimento”, explica. 

Na prática, o quadro pode se manifestar como dificuldade para acompanhar instruções, necessidade de repetição, respostas fora de contexto e queda no rendimento escolar.

Situações comuns da infância também podem interferir nesse processo. Otites de repetição, por exemplo, podem causar perdas auditivas temporárias, mas frequentes, justamente em uma fase importante para o desenvolvimento da linguagem.

Esse padrão é reforçado pelo otorrinolaringologista Dr. Bruno Borges de Carvalho Barros, da Associação Brasileira de Otorrinolaringologia e Cirurgia Cérvico-Facial. Segundo ele, a criança muitas vezes escuta, mas de forma incompleta.

“Ela acompanha em ambientes silenciosos, mas começa a perder partes importantes da fala em situações reais, como a sala de aula. Não é que não escute, ela escuta pela metade”, explica. 

Esse esforço contínuo para tentar compreender o que foi dito também cobra um preço. “É um esforço grande para completar a informação. Isso cansa e pode aparecer como desatenção ou desinteresse”, afirma. 

Entre os sinais que merecem atenção estão pedidos frequentes de repetição, aumento do volume de dispositivos eletrônicos e dificuldade em seguir instruções em grupo.

Quando o ouvido escuta, mas o cérebro não processa

Mesmo quando não há perda auditiva, a dificuldade pode estar em outra etapa do processo: a interpretação do som. A fonoaudióloga infantil Adriana Fiore explica que algumas crianças escutam normalmente, mas têm dificuldade para processar as informações. “Ouvir não garante compreensão. Em ambientes com muito estímulo, como a sala de aula, a criança pode não conseguir organizar e interpretar o que escuta”, afirma. 

Isso afeta diretamente habilidades importantes para o aprendizado, como memória auditiva, compreensão de comandos e organização da linguagem.

“Muitas dessas crianças são vistas como dispersas ou desatentas, quando na verdade têm dificuldade de decodificar a informação auditiva”, explica. 

O impacto aparece com mais força na alfabetização. A aprendizagem da leitura e da escrita depende da percepção e organização dos sons da fala e qualquer falha nesse processo pode comprometer o desenvolvimento escolar.

Diante desse cenário, especialistas reforçam que o maior desafio ainda é tornar essas dificuldades visíveis. “Nem toda dificuldade escolar é cognitiva ou comportamental. Muitas vezes existe uma barreira sensorial silenciosa por trás”, resume Dra. Roberta Pilla. 

A solução passa por um olhar mais atento, tanto da escola quanto da família, e por avaliações periódicas que permitam identificar precocemente alterações na visão e na audição. No fim, aprender também depende de algo básico e muitas vezes negligenciado: conseguir ver e ouvir bem.

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