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Por que operar logística no corredor Mercosul virou negócio para poucos especialistas

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# Por que operar logística no corredor Mercosul virou negócio para poucos especialistas

O comércio exterior brasileiro fechou 2025 com recorde histórico de exportações de US$ 348,7 bilhões, segundo dados do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC). No mesmo período, as exportações para a Argentina cresceram 31,4%, impulsionadas em boa parte pelo setor automotivo, e o bloco Mercosul ganhou peso institucional renovado com a promulgação, em maio de 2026, do Acordo de Facilitação do Comércio entre Brasil, Argentina, Uruguai e Paraguai. O cenário evidencia uma tendência que vinha se consolidando há mais de uma década: o transporte rodoviário internacional que sustenta boa parte dessa logística virou um segmento dominado por um grupo restrito de operadoras especializadas.

A razão é estrutural. Operar nesse corredor exige certificações federais específicas, frota apta a atravessar quatro regimes regulatórios distintos, equipes preparadas para protocolos aduaneiros que variam entre os países e capacidade de absorver oscilações cambiais e mudanças normativas frequentes. Empresas sem essa estrutura completa raramente disputam contratos com grandes embarcadores industriais. A consolidação tem implicações relevantes: indústrias químicas, agroexportadoras e tradings que dependem do bloco para escoamento de produção ou recebimento de insumos operam com base limitada de fornecedores qualificados, o que torna a escolha do parceiro logístico decisão estratégica equivalente, em alguns casos, à seleção de fornecedor de matéria-prima crítica.

A Interlink Cargo, transportadora gaúcha fundada em 1992, é uma das que se firmaram nesse perfil restrito. A empresa movimentou em 2025 cerca de US$225 milhões em mercadorias entre Brasil, Argentina, Uruguai e Paraguai, opera com frota própria moderna e rastreada, e mantém oferta integrada que combina transporte rodoviário internacional, despacho aduaneiro e armazém geral sob a mesma estrutura. Foi reconhecida em 12 edições pela Associação dos Dirigentes de Vendas e Marketing do Brasil no Rio Grande do Sul (ADVB/RS) na categoria Serviços de Suporte à Exportação, marca pouco comum no setor.

“Operar no Mercosul exige tratar cada país como um regime regulatório próprio.O cliente industrial não tem tempo nem estrutura para gerenciar as particularidades de cada país. O que ele contrata, na prática, é a capacidade do operador de absorver toda essa fricção regulatória e entregar previsibilidade”, afirma Lucas Vidal Cardoso, diretor comercial da Interlink Cargo.

O conjunto de certificações que sustenta a operação ilustra por que a barreira de entrada do setor é elevada. A Interlink Cargo é Operador Econômico Autorizado (OEA) da Receita Federal, programa que concede status diferenciado a empresas que demonstram conformidade fiscal, controles internos auditáveis e segurança comprovada na cadeia logística internacional. O programa é restrito por desenho. Segundo dados da Receita Federal, o Brasil tem cerca de 482  exportadores/importadores certificados como OEA, e esse grupo concentra 28,55% do valor total das declarações de comércio exterior brasileiras em 2025. As operações de empresas OEA-Conformidade passam pelo canal verde aduaneiro em 99,68% dos casos, contra média substancialmente inferior para as não certificadas, o que se traduz em redução direta de tempo de despacho e custo logístico para o embarcador.

A empresa também detém certificação SASSMAQ (Sistema de Avaliação de Saúde, Segurança, Meio Ambiente e Qualidade), padrão criado pela Associação Brasileira da Indústria Química (Abiquim) em 2001 e que se tornou pré-requisito contratual desde 2005 para o transporte de produtos químicos e perigosos. Cerca de 800 prestadores de serviços logísticos no Brasil possuem hoje a certificação. A relevância do filtro fica clara à luz do tamanho do mercado que ele atende: o setor químico brasileiro faturou US$ 158,6 bilhões em 2024, segundo dados da Abiquim, e representa 11% do PIB industrial. Na prática, empresas sem o SASSMAQ ficam fora da disputa por contratos de transporte com associadas da entidade antes da análise comercial.

A previsibilidade operacional, que o setor identifica como atributo mais valorizado pelos contratantes, vem sendo tratada também na camada tecnológica. A Interlink Cargo opera internamente um sistema próprio de machine learning para predição de cargas, que processa dados operacionais e envia o status da viagem diretamente ao cliente via WhatsApp. A solução endereça duas dores recorrentes no comércio exterior do bloco: a falta de visibilidade sobre o andamento da viagem e a dificuldade em estimar com precisão a previsão de entrega em rotas que cruzam fronteiras com diferentes regimes aduaneiros.

A relevância econômica do ganho de previsibilidade é direta. Embarcadores que conseguem prever com confiabilidade o momento exato em que uma carga chegará ao destino reduzem custos de armazenagem temporária, ajustam o planejamento industrial do cliente final, e diminuem o capital de giro imobilizado em mercadoria em trânsito. Para indústrias químicas e agroexportadoras, em particular, essa precisão impacta diretamente o custo logístico unitário.

“O ativo principal de uma transportadora B2B madura não é frota, embora a frota seja necessária. É a confiança acumulada de que aquela operação entrega no prazo, sem incidente, com documentação correta, em qualquer condição de mercado. Essa confiança vale décadas para construir e meses para perder. Por isso esse setor consolida em poucos players e reinvestir continuamente em frota, tecnologia e capacitação não é despesa, é manutenção do ativo principal”, pontua Lucas Vidal Cardoso.

A capacitação contínua compõe a outra ponta da operação. A Interlink Cargo destina recursos sistemáticos ao treinamento de motoristas, equipes de despacho e gestão, com a leitura de que a sofisticação operacional do comércio exterior, que combina normativas alfandegárias, exigências documentais e protocolos de segurança específicos para produtos perigosos, exige times preparados para responder em tempo real às situações pontuais que aparecem ao longo de uma rota internacional.

O padrão de mercado que se observa no transporte rodoviário internacional do Mercosul, com concentração em operadoras de longa permanência, conjunto completo de certificações e investimento contínuo em tecnologia e equipe, deve se manter na próxima década. Com o tratado Mercosul-União Europeia em vigor desde maio de 2026 e a expectativa de ampliação dos fluxos comerciais entre os blocos, a exigência de rastreabilidade, sustentabilidade e previsibilidade deve crescer ainda mais. A barreira de entrada para novos operadores tende a aumentar, e a posição das transportadoras já estabelecidas no corredor regional tende a se consolidar como elo crítico, e cada vez menos substituível, da cadeia logística do comércio exterior brasileiro.

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